domingo, 12 de maio de 2013

Por que passamos a odiar o serviço público, o Estado, a política e os políticos?


                                                           
Na reflexão de Luiz Flávio Gomes, o consumo individualista é a principal causa deste ódio: “Tudo que é estatal é visto, hoje, com desconfiança, com descrédito. Isso se passa com a educação, saúde, polícia, Justiça”

Fonte: Congresso em Foco , visitado em 12/05/2013. Endereço:
 

Por Luiz Flávio Gomes*
Quando um jovem domesticado pelo consumismo contemporâneo conversa com pessoas sexagenárias ele escuta histórias incríveis, como a da boa qualidade da educação nas escolas públicas, que antigamente a polícia e a Justiça funcionavam bem (ou muito melhor que hoje), que os presídios não eram tão deteriorados, que se podia despreocupadamente andar à noite pelas ruas da cidade etc. O serviço público ou, pelo menos, alguns setores do serviço público funcionam bem.

O que caracterizava esse bom serviço público? A padronização, que facilita o gerenciamento burocrático assim como a realização do ideal de igualdade (mesmo serviço para todas as pessoas), que está na raiz da distribuição dos bens públicos nos estados com baixa desigualdade.

Ocorre que, a partir dos anos 80, para salvar o modelo capitalista que entrava em recessão, desenvolveu-se uma nova cultura, a do consumismo individualista, personalizado, egoísta, que promove a socialização material do indivíduo assim como sua diferenciação, conferindo-lhe status; essa nova cultura conflita radicalmente com o serviço público padronizado, generalizador, burocratizado. O serviço público, prestado pelos agentes e autoridades do Estado, caiu em desgraça, porque não atende o desejo (a lei) de diferenciação do consumidor, que passou a ser oferecido pelo mercado (veja W. Streeck, em Piauí, 79, p. 61).

A partir do momento em que nossos desejos começaram a se dirigir para o produto ou o serviço personalizado, individualizado, estratificado ou sofisticado, que não é evidentemente prestado pelo Estado, passamos a odiá-lo (ou a refutá-lo), até por uma questão de diferenciação de grupos ou classes (dá status ter um carro, especialmente quando personalizado, um atendimento médico distinguido, colocar o filho numa escola cara, frequentar lugares ricos etc.). Primeiro caiu em desgraça o Estado, depois o serviço público (os serviços privados seriam mais eficientes); logo a contaminação alcançou também a política e os políticos (que enfrentam uma brutal senão a pior crise de credibilidade).

Tudo que é estatal é visto, hoje, com desconfiança, com descrédito. Isso se passa com a educação, saúde, polícia, Justiça, agências públicas, infraestrutura governada pelo poder público (aeroportos, portos, estradas, hospitais) etc.

Não há como não reconhecer que as democracias ocidentais passaram por uma profunda transformação neoliberal, que resultou mais acentuada em países com tradição escravagista (como o Brasil). O que Albert Hirschman escreveu sobre as ferrovias estatais da Nigéria (veja W. Streeck, em Piauí, 79, p. 65), bem sintetiza a nossa atual realidade: “Conforme os mais ricos perdem o interesse pelo serviço coletivo, e se voltam para as alternativas privadas – mais caras, mas, para eles, acessíveis -, sua saída acelera a deteriorização dos trens públicos e desestimula o seu uso, mesmo entre aqueles que dependem deles porque não podem pagar por alternativas privadas”.

Ou seja: o serviço público (educação, saúde, segurança etc.) consegue manter um certo nível de satisfação enquanto é utilizado também pelos ricos. Aquilo que não é usado pelos ricos se deteriora. Isso explica, adequadamente, a razão pela qual os presídios nunca constituíram um bom serviço público. Quando os ricos (os que podem pagar) deixam de utilizar um determinado serviço ou bem público, em razão da lei da diferenciação do consumidor, vem o colapso. Esse é o motivo pelo qual o BNDES tem vida longa.

* Luiz Flávio Gomes, jurista e presidente do Instituto Avante Brasil, está no blogdolfg.com.br.

O negócio agora é produzir!

                                                           
“O que nos alimenta hoje é a produção de conhecimento. Produzir, armazenar e disponibilizar. Depois produzir mais, armazenar mais ainda e tornar tudo acessível. É a nova onda! Fique atento ou ficará pra trás.”

Fonte: Blog Reino do Ibisco , visitado em 12/05/2013. Endereço:


Por Giovanne Bicalho*


O negócio agora é produzir!!

Não produzir produtos.

Isso já está ultrapassado há décadas.

O que nos alimenta hoje é a produção de conhecimento. Produzir, armazenar e disponibilizar. Depois produzir mais, armazenar mais ainda e tornar tudo acessível. É a nova onda! Fique atento ou ficará pra trás.

Falando em ficar pra trás, quem não sabe inglês já ficou. Já era. Graduação é coisa de fracassado, coisa de século XX. Sem um Mestradozinho que seja nem adianta espalhar currículos. Não há empregabilidade e ponto final.

Não produziu conhecimentos? Artigo, Blog, Encontro, Seminário, Conferência, Referência, notinha de jornal que seja? Ficou pra trás!

A era da competição! Quem não compete não sai da escola. Você deve estar acima do outro. Ou melhor. Todos devem estar acima de todo mundo. Não há espaço pra tanta gente assim. Só os melhores. Só os me-lho-res!

E seu perfil, é adequado? Seu trabalho é sua vida. Sua vida é virtual. Seu trabalho é o Facebook! Vamos averiguar! Não usa Twitter? Ficou pra trás.

- Próximo!

Linked-in desatualizado? O mundo gira rápido. Tudo é instantâneo. Postei sua foto no Instagram. Ainda não viu? Não é antenado.

- Manda a fila andar!

E a fila anda. Como anda. Tem que estar preparado. O mundo é cruel. Globalização. Crescimento. Dinheiro. Lucro. Percentual. Avanço. Tá captando?

- Próximo!

Não existe papel. Mesa? Coisa da Idade média! Cada um traz o seu Ipod, Iped, Tablete se liga no Wi-fi com Blue-High e se conecta na rede social. Tá por dentro?

Todo mundo atento. Tô transmitindo no Youtube. Te chamo no Chat e me responde por sms no Whatsapp. Não é smartphone?

- Próximo!

- Próximo!!!

- PRÓXIMO!!!!

Paisinho de desqualificados! Mão-de-obra barata!

Por isso esse país não vai pra frente!



* Giovanne Bicalho é servidor público e está no www.reinodoibisco.blogspot.com.br.


domingo, 5 de maio de 2013

Quem mais deve temer o espelho?



Quem mais deve temer o espelho?
Amilcar Faria*
                                                           
"Nada mais difícil de manejar, mais perigoso de conduzir, ou de mais incerto sucesso, do que liderar a introdução de uma nova ordem de coisas. Pois o inovador tem contra si todos os que se beneficiavam das antigas condições e apoio apenas tíbio dos que se beneficiarão com a nova ordem."

A República vivia um momento conturbado. A corrupção generalizara-se em três décadas de (re)democracia. Os últimos baluartes da ética política­ há muito haviam traído ideais de igualdade social, principalmente um cujo líder de honra, autoproclamado “o mais ético”, veio, em ato de desonra, a se aliar ao mais corrupto no vale tudo pela continuidade no poder.

A bancarrota moral e ética ia tão à larga que a sociedade civil já se organizava em revolta pacífica e conseguira duas importantes vitórias contra os efeitos da corrupção eleitoral e política (Lei da Compra de Votos e Lei da Ficha Limpa). Agora combateria a causa: o financiamento privado de campanha que permite ao poder econômico ingerir na política.

No plano partidário restavam íntegros poucos indivíduos. Isolados em seus partidos, defendiam com ética as ideologias que fundaram suas agremiações, ambas traídas pela maioria qualificada de quadros desqualificados em exercício de fisiologismo mascarado em governabilidade na falácia de um presidencialismode coalisão[1].
A classe política perdera o pudor para manter-se no poder.
Corrompia-se. Vendia e comprava apoio para aprovar reformaspaliativas sem pagar o justo preço (capital político) para aprovar reformasnecessárias. Escudava-se no “uso de caixa 2”, como se isso não fosse crime (contra o sistema financeiro, Lei nº 7.492/1986, artigo 11).
Corrompia as prioridades. Construía estádios de bilhões para evento único ao invés de hospitais ou escolas de poucos milhões para uso contínuo; Criava canais de transposição que matariam rios ao invés de cisternas que manteriam famílias; isentava impostos de veículos que inviabilizariam o transporte urbano ao invés dos remédios que viabilizariam vidas humanas.

Corrompia o uso do dinheiro público desviando verbas para locupletar compadres, parentes ou laranjas (a si mesmos), condenando a população a morrer à míngua por falta de hospitais, de UTI’s, de médicos, de remédios ou de atendimento.

Corrompia a sociedade. Dava bolsa “esmola”, que deveria ser mecanismo condicional de transferência de recursos, cuja condição (manter crianças na escola) quebraria o ciclo que gera a pobreza, mas gerava dependência econômica e fidelizava votos ao reduzir o nível da educação para escravizar os mais necessitados.
Corrompia a democracia. Fortalecia o fisiologismo político, ferindo de morte a independência e a harmonia dos poderes; fomentava o militantismo cego, surdo e burro, e a falta de consciência para a cidadania; aumentava gastos públicos com publicidade para corromper a mídia.

Mas havia no ar um ideal, um sonho acalentado por sonháticos que se diferenciavam dos lunáticos por suas ideações (ideias e ações), mesmo parecendo impossível o sonho por contrário à subvertida ordem estabelecida de uso da política para o bem pessoal em prejuízo do bem coletivo.
Avizinhava-se uma nova era, com o surgimento de um movimento que propunha uma Nova Política e que, para isso, já iniciara a criação do partido que seria o vetor da mudança desejada quanto necessária: a REDE SUSTENTABILIDADE.

Precipitara-se a disputa eleitoral de 2014 em quase dois anos. O governo tinha aprovação superior a 70% e já iniciara a campanha, dissimulada, apesar da necessidade de mudança periódica do poder para a saúde da democracia.
Mas, assim como na natureza o momento mais escuro da noite é o que antecede o alvorecer, o momento mais obscuro da política é o que antecede o alvorecer de uma nova ordem, de um novo paradigma.
Iniciara-se o recolhimento das 560 mil assinaturas de apoio ao novo partido (#rede), conforme a lei, quando o casuísmo encontrou a falta de ética dominante na política hegemônica.
Um projeto de lei (PL4470/2012), apresentado por fantoche marionetado pelos interesses dos efêmeros detentores do poder, que impediria o acesso dos novos partidos ao fundo partidário e ao tempo de TV, tramitava em regime de urgência.

A grotesca manobra, de pronto reconhecida como casuística, foi chamada de golpe contra a democracia pelos mais esclarecidos ou menos acovardados. Até o STF interveio quando provocado pelo bom senso de um Senador da República.
Foi neste contexto que se fez ouvir uma pergunta incômoda e que não se conseguiu calar:

- “Eles (os efêmeros detentores do poder) tem medo de quê?”

A resposta, rápida e perspicaz por inspirada, tentava materializar a #rede no plano das ideias e da política:
- “Eles têm medo de nós, os Nós da #rede! Temem ter que olhar para a ética e a integridade de uma nova política durante o dia e não mais se reconhecerem no espelho durante a noite, nem conciliar o sono durante a madrugada, nem saber como responder por seus atos no DEPOIS, quando despertada a consciência”!

A pergunta que restou após tal resposta é de mais difícil solução, por significante ambiguidade do significado:

- Quem mais deve temer o espelho?


O espelho
poesia concreta



* AmilcarFaria é servidor público federal e diretor de Programas de Controle Social do Instituto de Fiscalização e Controle (IFC), entidade que representa no Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE).